segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Não somos mais nós


- Nossa, quanto tempo! 
- Pois é.
- Você está ainda mais linda.
- Acho que algo me fez bem.
- Como vai a vida?
- Para com isso, o que você está fazendo aqui? Quem te passou meu endereço?
- Sei lá, deu saudades, sabe? Não importa.
- Não sei não, pelo menos não estou me recordando de nenhuma vez que tive o meu nome sendo chamado as onze horas da manhã com esse papinho de que eu tava com saudades.
- Não é papinho, eu realmente to. Achei uma blusa sua em casa e dormi com seu cheiro, acordei de madrugada e fiquei pensando, só que apenas pensar não deu, eu precisava vir te ver.
- Guarda essa pra outra.
- Eu entendo você estar assim, não te faltam motivos, mas pô, eu to aqui, to arrependido, peguei uma estrada longa para te encontrar, ouvindo esses cachorros latirem na porta da sua casa, essa hora..
- É tarde.. Já se foram um pouco mais de quatro anos, sei la quantos dias e quantas horas. Demorei demais para conseguir enfiar um ponto final na nossa história para desperdiçar meu esforço transformando-o em reticencias. 
- E todas as ligações? Todos os choros de madrugada? 
- Passou como qualquer outra coisa na vida. Você disse que eu ia superar, lembra? Você tinha razão.. 
- Não acredito, até ontem eu era o amor da sua vida.
- Pois é, pra você ver como as coisas mudam, nem sei se realmente existe amor de nossas vidas. Cheguei a pensar que você era meu príncipe encantado, vê se pode. Eu queria tanto que desse certo, que eu não vi que eu era muito pra você.
- Eu compreendo. Mas não acredito não, ninguém supera ninguém do dia pra noite.
- Não foi do dia pra noite.
- Posso entrar?
- Não.
- Tem alguém aí?
- O que importa?
- Manda a real, quem foi que me tirou da sua cabeça?
- É melhor você ir embora.
- To com saudades do seu bolo com chá.
- Daqui a pouco eu tenho que ir trabalhar.
- To com saudades da sua atenção.
- Sem drama, vai. A gente sabe que esse teu teatro acaba depois de um tempo, aliás não sei nem porque começou, não sei nem o porque veio até aqui.
- Não estou fazendo teatro, juro pra você.
- Você já jurou tanta coisa, lembra? Acabou.
- Então me explica, como você me superou? Porque eu ainda não nos superei.
- Tive que arranjar alguém pra passar os dias ruins.
- Sabia que tinha outro cara na parada, quem é ele?
- Não é ele, sou eu.
- Que?
- Sou eu.
- É você o que?
- Que eu arranjei pra passar os dias ruins.
- Você tá ficando louca?
- Tô não, sempre fui, você deveria saber disso. Agora me deixe, vá embora, vou aproveitar o pouco tempo que me resta.
- Até deixo, se for comigo.
- Acabou, cara, acabou. Melhor você ir embora.
- Como você se fez companhia? 
- Fui aprendendo que ninguém vai me fazer feliz se por vezes eu não fizer isso por mim, isso foi e está sendo suficiente. Não era você, nem era eu, era a gente. Nada fluía e eu não podia ficar me culpando pra sempre, tentando fazer com que tudo desse certo sozinha. Eu precisei me forçar aprender a gostar mais de mim do que de você, depois disso foi fácil te superar.
- Fácil?
- Facílimo. Quando dói não é amor, é doença, eu tava doente de amar errado, cara, eu precisei abdicar de mim pra não desistir de você e isso me levou ao fundo do poço, mas o bom de chegar lá é saber que o único lugar pra onde você pode ir é pra cima. Eu não precisava de você, eu precisava de mim. Era esse o problema.
- To ligado nesse lance de amor-próprio, muito bonita sua filosofia, mas morena, to falando da gente, sabe? Sei que sou cabeça dura e que errei pra caramba, mas ainda sou eu, morena, e eu ainda te amo.
- Eu sei, mas não adianta ainda ser você se já não sou mais eu. Vou entrar.
- Te amo.
- Também me amo.
- Te amo pra caralho.
- Preciso ir. Tchau.
- Deixa eu ir junto.
- Você não entende.
- Não entendo.
- Fique sem entender então.
- Diz que me ama.
- Não amo.
- Nem um pouco?
- Nemhum pouco! 
- Quanto tempo você ainda tem antes do trabalho?
- Não interessa.
- Você faz o café e eu faço a torrada.
- Faça o café e a torrada na tua casa. Guarde esse teu mi-mi-mi e essa tua saudade pra outra, outra que te mereça e que de preferencia seja como a ti, pra você saber o quanto é bom. Você não é merecedor de uma grande pessoa ao teu lado e já que você não sabia, eu vou te dizer: Não somos mais nós.
- Isso é um adeus morena?
- Já era um adeus a pouco mais de quatro anos, sei la quantos dias e quantas horas.
- Entendi, adeus então..
- Adeus!

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